"Ele lhe ensinara que nada do que se faça na cama é imoral se contribui para perpetuar o amor. E algo que havia de ser desde então a razão de sua vida: convenceu-a de que a gente vem ao mundo com as trepadas contadas, e as que não se usam por qualquer motivo, próprio ou alheio, voluntário ou forçado, se perdem para sempre. O mérito dela foi tomá-lo ao pé da letra. 

[…]

Florentino Ariza se lembrou de uma frase que ouvira menino do médico da família, seu padrinho, a propósito da sua prisão de ventre crônica: “O mundo está dividido entre os que cagam bem e os que cagam mal.” Sobre esse dogma o médico elaborara toda uma teoria do caráter, que considerava mais certeira do que a astrologia. Mas com as lições dos anos, Florentino Ariza a formulou de outro modo: “O mundo está dividido entre os que trepam e os que não trepam.” Desconfiava dos últimos.

(O Amor nos Tempos do Cólera - Gabriel García Márquez)


"E até quando acredita o senhor que podemos continuar neste ir e vir do caralho? - perguntou."

(O Amor nos Tempos do Cólera)


"Nós homens somos uns pobres criados de preconceito", ele tinha dito certa vez. "Em compensação, quando uma mulher resolve dormir com um homem não há barreira que não salte, nem fortaleza que não derrube, nem consideração moral nenhuma que não esteja disposta a varar de lado a lado: não há Deus que valha."

(O Amor nos Tempos do Cólera)


"Não podia conceber marido melhor que tinha sido o seu, e no entanto encontrava mais tropeços do que complacências na evocação de sua vida, demasiadas incompreensões recíprocas, brigas inúteis, rancores mal solucionados. Suspirou de repente: "É incrível como se pode ser tão feliz durante tantos anos, no meio de tanto bate-boca, tantas chateações, porra, sem saber de verdade se isso é amor ou não."

(O Amor nos Tempos do Cólera)


"Florentino Ariza viveu muito tempo na ilusão de ser o único, e ela lhe dava o gosto de acreditar nisso, até que teve a má sorte de falar dormindo. Pouco a pouco, ouvindo-a dormir, ele foi recompondo aos pedaços a carta de navegação dos seus sonhos, e se meteu por entre as ilhas numerosas de sua vida secreta. Assim ficou informado de que ela não pretendia se casar com ele, mas se sentia ligada à sua vida pela gratidão imensa que lhe devia por tê-la pervertido. Muitas vezes disse a ele:

- Adoro você porque você me tornou puta.”

(O Amor nos Tempos do Cólera)


”- Este não é um bom lugar para uma deusa coroada.

Voltou a cabeça e viu a dois palmos de seus olhos os outros olhos glaciais, o rosto lívido, os lábios petrificados de medo, tal como os vira no tumulto da missa do galo pela primeira vez em que ele estivera tão perto dela, mas ao contrário daquela vez não sentiu agora a comoção do amor e sim o abismo do desencanto. Num instante teve a revelação completa da magnitude do próprio engano, e perguntou a si mesma, aterrada, como tinha podido incubar durante tanto tempo e com tanta ferocidade semelhante quimera no coração. Mal conseguiu pensar: “Deus meu, pobre homem!” Florentino Ariza sorriu, procurou dizer alguma coisa, procurou acompanhá-la, mas ela o apagou de sua vida com um gesto da mão.

- Não, por favor - disse. Esqueça.

[…] Hoje, ao vê-lo, descobri que só nos unia uma ilusão.”

(O Amor nos Tempos do Cólera)


"Mas Sara Noriega não deixou, até que acabasse de desabafar contra Fermina Daza. Por um golpe de intuição que não teria podido explicar, estava convencida de que ela fora autora da conspiração para lhe escamotear o prêmio. Não havia nenhuma razão para isso: não se conheciam, não se tinham visto nunca, e Fermina Daza não tinha nada a ver com as decisões do concurso, embora estivesse ao concorrente dos seus segredos. Sara Noriega disse de um modo terminante: "Nós mulheres somos adivinhas." E pôs fim à discussão."

(O Amor nos Tempos do Cólera)


" - Que puta que você é! - disse."

(O Amor nos Tempos do Cólera)


"Gosta de música?

Fez a pergunta com um sorriso encantador, de um modo natural, mas ela não retribuiu.

- Qual o motivo da pergunta? - perguntou por sua vez.

- A música é importante para a saúde - disse ele.

Acreditava mesmo, e ela ia ver muito em breve e pelo resto da vida que o tema da música era quase uma fórmula mágica que ele usava para propor uma amizade, mas naquele momento ela entendeu que era uma brincadeira.”

(O Amor nos Tempos do Cólera)


"Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado."

(O Amor nos Tempos do Cólera)


"Está bem, me caso com o senhor se me promete que não me fará comer berinjela."

(O Amor nos Tempos do Cólera)


"Não se procura um livro para fugir à vida, mas sim para viver ainda mais, viver a vida das outras personagens, em outras terras, outros tempos. Ainda é o desejo de viver que nos leva para a leitura dos romances." 

(Flávio Loureiro Chaves)


"A tarde punha um brilho particular nas coisas, de doçura e satisfação."

(Recordações do Escrivão Isaías Caminha - Lima Barreto)


Guiados pelas mesmas leis, obedecendo quase a um único critério, todos eles se parecem; e, lido um, estão lidos todos.

[…]

Cada qual mais queria, ninguém se queria submeter nem esperar; todos lutavam desesperadamente como se estivessem num naufrágio. Nada de cerimônias, nada de piedade; era para a frente, para as posições rendosas e para os privilégios e concessões. Era um galope para a riqueza, em que se atropelava a todos, os amigos e inimigos, parentes e estranhos.

[…]

-Ora, minha senhora! Nós todos somos criminosos… A senhora também o é!

- Eu, doutor!

- Sim! A senhora para viver tirou a vida de muita gente; para ter esse vestido, esses laçarotes, tira a de muitos outros… A nossa vida só se desenvolve com grandes violências sobre as coisas, sobre os animais e sobre os semelhante…

- Mas dessas não o sabemos!

- Talvez não seja tanto assim…

[…]

É outra mentira dos jornais que logo senti.

Não há repartição, casa de negócio em que a hierarquia seja mais ferozmente tirânica. O redator despreza o repórter; o repórter, o revisor; este por sua vez, o tipógrafo, o impressor, os caixeiros de balcão. A separação é a mais nítida possível e o sentimento de superioridade, de uns para os outros, é palpável, perfeitamente palpável. O diretor é um deus inacessível, caprichoso, espécie de Tupã ou de Júpiter Tonante, cujo menor gesto faz todo o jornal tremer.

[…]

Não conhecia essa espécie de imprensa, e só mais tarde vim a saber que “azeite”, na gíria carioca, é namoro. 

(Recordações do Escrivão Isaías Caminha - Lima Barreto)


Não sei como a conversa foi variar para a beleza. Ele riu-se da nossa opinião habitual dela, da insignificância do critério dos nossos literatos. Gente, disse-me ele, que vive perturbada, desejosa de realizar ideias de povos mortos, ideais que já se esgotaram; prisioneira da arqueologia, e muito certa de que a verdade está aí, como se houvesse uma beleza absoluta, existindo fora de nós e independente de nós.

[…]

- Doutor Lobo, como é certo: um copo d’água ou um copo com água¿

O gramático descansou a pena, tirou o pince-nez de aros de ouro, cruzou os braços em cima da mesa e disse com pachorra e solenidade:

- Conforme: se se tratar de um copo cheio, é um copo d´água; se não estiver perfeitamente cheio, um copo com água.

[…]

Eu não sou um literato, detesto com toda a paixão essa espécie de animal. São em geral de uma lastimável limitação de idéias, cheios de fórmulas, de receitas, só capazes de colher fatos detalhados e impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às idéias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e um pueril e errôneo critério de beleza. 

[…]

A Gramática do velho professor era de miopia exagerada.

Não admitia equivalências, variantes; era um código tirânico, uma espécie de colete de força em que vestira as suas pobres idéias e queria vestir as dos outros. 

(Recordações do Escrivão Isaías Caminha - Lima Barreto)