“Eu lhe pergunto o que ele quer.
- Que minha mente entre de volta nos eixos. Mas tentar curar a própria mente amarrando os sapatos de acordo com um código de comunicação da época da escola… ligeiramente ajustado para se encaixar na situação atual… isso é loucura, o senhor não acha? E pessoas loucas devem procurar ajuda. Se ainda lhes resta alguma sanidade, e tento me convencer de que ainda me resta, elas sabem disso. Então cá estou eu. […]
Eu lhe digo que a maioria das pessoas que contam acredita que chegar a um certo total, o que chamamos de “número meta”, é necessário para sustentar a ordem. Para manter o mundo dentro dos eixos, por assim dizer. […]
- São três conjuntos - retoma ele, falando numa voz não exatamente firme. - Contar as coisas é o primeiro. É importante, mas não tanto quanto tocá-las. Tem algumas coisas que eu preciso tocar. Bocas de fogão, por exemplo. […]
Então contar é importante, digo eu, mas tocar é mais ainda. O que está acima de tocar?
- Organizar - diz ele, começando a tremer de repente, como um cachorro deixado ao relento numa chuva fria. […]
- O senhor já leu “The Great God Pan”, de Arthur Machen?
Eu balanço a cabeça.
- É o conto mais assustador já escrito - diz ele. - Nele, um dos personagens diz “a luxúria sempre prevalece”. Mas não é de luxúria que ele está falando. Ele está falando de compulsão.
Paxil? Talvez Prozac. Mas nenhum dos dois até eu começar a entender melhor esse paciente interessante.
N. traz seu “dever de casa” para noss próxima sessão, como não tive dúvidas de que faria. São muitas as coisas neste mundo que não são garantidas, e muitas as pessoas nas quais não se pode confiar, mas pacientes de TOC, a não ser que estejam morrendo, quase sempre fazem o que lhes é pedido. […]
Correndo os olhos por elas, tenho dificuldade em entender como ele consegue arranjar tempo para fazer qualquer outra coisa. No entanto, pacientes de TOC quase sempre encontram uma maneira. A ideia dos pássaros invisíveis me volta à cabeça; eu os vejo pousados sobre o corpo inteiro de N., arrancando sua carne em nacos sangrentos. […]
Um homem que está sendo bicado até a morte por pássaros não consegue se interessar pelos insultos ou mágoas do ano anterior, ou mesmo da semana interior; ele se preocupa com o hoje. E, Deus o ajude, com o futuro.”
(Stephen King - N.)